A Juventude de Sofia
lucelena maia
Ah! Doce Sofia, dos olhos amendoados, sorriso rasgado, gestos espalhados, difíceis de serem juntados quando o assunto era a juventude que já lhe ia distante, necessitando que corrêssemos para alcançar-lhe os passos.
Sofia vivia à frente do tempo escrito no calendário. Inimaginável rebelde, costurava paixões por linhas tortas e nós, seus eternos apaixonados.
Ela, não possuía rima com o pequeno mundo que a cercava, era o mais belo poema solto, cuja métrica escorria por entre os dedos de quem aventurasse, na tela, esboçar a guerreira e matreira fera que se prenunciava.
Aquela deusa esguia, todos os dias, quando a aurora surgia, descerrava a cortina do coração para a entrada da brisa, que o verde da natureza trazia em arcos de energia, pelo sol, que dela se enamorava, em seguida, na mente esculpia o mais recente desejo que lhe roubara o sono na madrugada e, então, no diário sacramentava, decidida, a data da partida.
Mais uma vez as portas do mundo se abririam para ela.
Desta feita, Florença, com ares medievais, a embalava. Sofia queria banhar-se de cultura no museu Uffizi, um dos maiores acervos de arte do mundo. Saber de Dante no labirinto de ruelas. Conhecer a Igreja de Santa Maria de'Cerchi, onde ele viu sua amada Beatriz pela primeira vez e, porque estava em férias, se entregaria em devaneios à Divina Comédia. Caminharia por todo o centro histórico, entre Igrejas, monumentos, museus e galerias. Enriqueceria seu acervo de conhecimento visual pelas viagens ao mundo. Sentaria na Piazza della Repubblica, do século XIX, e degustaria os deliciosos, antigos e conhecidos cafés de Florença.
Atravessaria a Ponte Vecchio, pausadamente, e sobre as águas do rio Arno declamaria sonetos de Petrarca e quando do pôr-do-sol, em dourado ofuscante, subiria na Piazzale Michelangelo e de lá fotografaria as últimas das muitas lembranças que fariam seu sonho realizado.
Assim ela quis e aconteceu.
Sofia se foi e levou consigo o aromatizante jasmim dos ambientes que freqüentava, subtraindo, dos pisos por onde desfilava com elegância, os belos passos que, somente ela, triunfante, ousava.
Os dias se transformaram em séculos, encerrando tardes amenas, noites serenas e madrugadas insones na vida dos que se perguntavam; -“ Por onde andará Sofia? Por que tanta demora! Florença já deve estar cansada de sua presença! Ah! Um dia você não volta, Sofia, e nós não suportaremos conviver com a lembrança do seu sorriso simbólico, talhado em nossos olhos. Volte musa, os salões e as grandes festas são os seus tablados. A dança corre em sua veia, um vício conduzido por nossos braços. O calor do seu corpo mantém nosso peito livre e solto, ainda que preso ao desejo do pecado. Você é a única certeza dos nossos corações não sofrerem infarto. Ah! Sofia, onde está sua aveludada voz. Sofia, volte!".
Éramos admiradores secretos, quase saindo do anonimato.
E, numa tarde, de um dia qualquer da semana, de um mês esfolado pelo parco salário dos que não podiam pensar em viagens, chegava Sofia.
Chegava e com ela trazia a essência da felicidade, anunciada.
Sofia vivia num tempo sem data. Sua juventude não tinha limite idade. Era feliz e alegria irradiava.
Hoje, ela é história. De tempos em tempos, nós, senhores grisalhos, nostálgicos e apaixonados falamos com boca cheia de açúcar sobre a diferente criatura, livre e um tanto ausente que nos roubou suspiros infindos e deixou-nos muitas saudades.
05/11/2004
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