Assédio

lucelena maia

 

         Sofia  abriu a janela do apartamento. Há meses não via os raios de sol tão intensos como naquela manhã.

Ela os deixou penetrar pela sala, por sua pele, alma, pela vitória travada com o desemprego durante meses. 

Desejava chamar pelos vizinhos,  comunicar-lhes o novo  emprego, porém a pessoa ao telefone dissera para se apresentar na manhã seguinte munida de todos os documentos e o exame médico.  Aquela voz, um tanto fria e objetiva, que nada conhecia dos seus anseios, dera-lhe a melhor notícia dos últimos meses, desacreditada que estava de emprego. 

Ria de si mesma, lembrando da confusão ao pegar caneta e papel para anotar as informações. 

            Caminhava pela rua com tudo resolvido, era final de tarde.  Estava ansiosa. Sim, uma ansiedade temporária, como o novo emprego. Fizera de conta, ao receber a notícia da contratação, que o trabalho seria efetivo, para não voltar a pensar que, em quatro meses, estaria desempregada novamente. Mas estaria. Porém, aquela tinha sido a melhor notícia do dia, mais real do ano.

A secretária, a qual iria substituir numa  licença maternidade, retornaria em quatro meses. Mas, será que ela retornaria mesmo? E, se esta se encantasse com a maternidade e resolvesse dar um tempo na profissão, para ser somente mãe?  Chega Sofia! Cada momento ao seu tempo, nada de precipitar as coisas!

Essa bendita ansiedade a sacrificava,  ao colocar o tempo à frente dos acontecimentos.

          Primeiro dia de trabalho. Sofia remexia no armário, sem saber ao certo o que vestir, optou, enfim, por um terno preto. Ajeitou as mechas dos cabelos que teimavam se desalinharem dos ombros. Delineou os olhos em tom marrom,  máscara nos cílios  para  evidenciarem os olhos cor de mel e discreto batom nos lábios.  Olhou-se no espelho pela última vez, aprovando o resultado.

         Dr. Aurélio era homem alto, de olhar profundo, enigmático, queixo quadrado, corpo forte e aparentava cinqüenta anos. Sulcos profundos ao lado da boca evidenciavam seus lábios carnudos.  Os dentes perfeitos e brancos denotavam ser ele um homem sorridente. A pele bronzeada, as unhas das mãos bem cortadas, o cabelo impecável, o terno  projetando o corpo e suntuosa gravata confirmavam-lhe a vaidade.

        No final do terceiro dia de trabalho, Joana, a futura mamãe, havia passado todas as informações necessárias e  a prioridade com que deveria atender as exigências de sua função. A primazia dos ouvidos sempre atentos ao chamado do chefe, um profissional competente, segundo a secretária, mas estritamente cheio de manias. Despediram-se, uma desejando à outra; boa sorte.

         As semanas voavam. Há três, Sofia trabalhava como nunca, sem um minuto de tempo para pensar que seu chefe exigia muito mais do que ela imaginou, quando Joana ainda estava ao seu lado. Ele parecia testá-la a todo instante, solicitando recordes de tempo a cada trabalho. Em sua primeira entrada na sala, naquele novo dia,  ele solicitou café, porém o pedido veio quase em súplica, com aquela enorme mão sobre a sua, a acariciá-la, como se estivesse exausto nesse dia que apenas começava. Joana havia dito que ele era cheio de manias - lembrou.

         Quando esse mesmo dia chegou ao fim, um bilhete acompanhava mais um dos, já realizados, trabalhos de pesquisa solicitado por ele, elogiando o resultado e a satisfação por tê-la como colaboradora.

         Ao completar um mês na empresa, recebeu flores. Já estavam em sua mesa quando chegou, naquela quente manhã. O bilhete dizia da sua eficiência, tudo o que um chefe espera de sua secretária.

         Quando ela abriu a porta da sala dele, no final do expediente, para despedir-se, foi convidada a tomar um drink, para selar, não só tudo o que ele escrevera no cartão, mas, principalmente, o fechamento de um grande contrato, do qual ela tinha sido peça fundamental, de ligação, entre as duas empresas.

Sofia, muito sem graça,  agradeceu o convite e inventou uma desculpa qualquer, esquivando-se do chefe festivo. Este lado comemorativo dele não tinha sido explanado por Joana.

        Chegou a  pensar em assédio, e, pensativa foi para a cama, colocando-se dentro de um pijama de flanela florido que há muito a acompanhava no inverno, principalmente quando estava  absorta em pensamentos, porém, naquela noite, fazia calor infernal. Saiu da cama e tirou o pijama. Estava julgando-o mal, pensou. Mais uma vez colocava o tempo à frente dos acontecimentos. Entrou no chuveiro e depois de refrescante banho ligou a televisão, se proibindo voltar a pensar no assunto.

          Nos dias que se seguiram, tentou ser o mais discreta possível.

         Ele saiu em viagem, passaria dez dias no exterior para fechar outro grande negócio para a empresa. Chegou a lamentar não levá-la consigo, justificando o quanto sua eficiência o ajudaria.

Sofia queria acreditar que realmente era tão eficiente como ele a colocava, não objeto de seu desejo. Continuava cismada e insegura, desejando que os dias que faltavam para Joana retornar, passassem rápido. Temia que, de repente, o chefe abrisse o jogo. Precisava muito desse emprego, mas, para se assegurar, recomeçara a enviar currículo.

         Trabalhava compenetrada, numa quinta-feira, em que os dedos doíam a cada teclada, de tão tensa que estava para finalizar o relatório que disponibilizaria a ele, na manhã seguinte, em sua volta do exterior, onde fechara mais um excelente negócio. Mas, foi tomada de sobressalto quando uma mão tocou suas costas. 

   Pulou da cadeira.

            Dr. Aurélio sorria - largo sorriso. Nas mãos segurava um pacote, um lindo pacote de presente, que punha à sua frente.

             Sofia agradeceu-o, com os olhos voltados para a caixa, de onde pode ver emergir o pedido: seja minha amante...

         Ficou difícil para ela levantar a cabeça, sabia que encontraria olhos pidões, despindo-a da roupa que usava e vestindo-a com aquele scarf, em seda, que tirou de dentro da caixa

         O telefone tocou e o encanto foi quebrado. Sofia agradeceu a quem quer que fosse do outro lado, e por sorte era a secretaria da diretoria financeira, pedindo para Dr. Aurélio comparecer a reunião, de imediato.

         Ele saiu, ela mais uma vez agradeceu em pensamento, desejando que a reunião não terminasse antes que seu expediente.

         Que encruzilhada se metera, estava, sim, sendo assediada. Calara-se perante cada atitude duvidosa dele, justificando para si que era démodé perseguir uma pessoa em nível hierárquico inferior. Mas não, assediar continuava tão atual quanto antes. Como era possível isso? Ele foi preparando o ninho e  ela aceitando cada migalha, não por ingenuidade, mas por vê-lo um homem íntegro, merecedor de seu respeito. Mas ele não queria respeito, queria seu corpo.

         Não foi fácil dormir naquela noite, e quando se entregou ao sono esteve rodeada por pesadelos. Acordou, pela manhã, suada e angustiada, mas definida a colocar fim àquele martírio.

         Ao chegar à empresa  ouviu  rumores de que seu chefe viajara novamente. Apreensiva caminhou até sua sala, lá encontrou um longo  comunicado interno, dizendo que se encontrariam na Itália, dentro de dois dias, prazo suficiente para que Joana retornasse e reassumisse o cargo. 

Sofia depositou, incrédula, o bilhete sobre a mesa. Ele a queria na Itália, dizia que já havia conversado no departamento de recursos humanos, onde informaram que ela tinha passaporte e se disponibilizara para viagens. Sim, ela lembrava, de fato, quando preenchera a ficha para contratação, se colocara a disposição para viagens, mas jamais imaginou que isso pudesse acontecer. Não podia acreditar. Joana retornaria antes da data prevista para que ela fosse ao encontro do chefe!

         Naquela noite, no portão de casa, um telegrama lhe foi entregue pela vizinha. Sentiu raiva. Ele tivera a desfaçatez de enviar-lhe um telegrama. Mas, não, ao ler o remetente seus olhos brilharam. Rasgou o envelope. Tinha pressa. "A aguardamos para entrevista às dez horas do dia...".

         Sofia beijou muitas vezes o telegrama, abriu a janela para deixar o luar entrar. Precisava da luz da lua, cheia e radiante, dentro de seu apartamento. As estrelas brilhavam felizes, como que piscando para ela. Tinha um céu, todo, a seu favor. Tinha, também, vontade de falar, novamente, aos vizinhos, dizer-lhes que não ficaria desempregada, porém não tinha tempo, precisava rever os documentos, deixa-los em cima da mesa, prontos para a entrevista da manhã seguinte.

         Sorriu, rodopiou, cantarolou... Surgia a oportunidade de um novo emprego. 

                                              28/5/2004

 

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