Brisa à Alma

                                                    lucelena maia

 

       Buenos Aires, voltei!

       Suspirou Silvia, com os olhos marejados de saudades, lembrando dos motivos que a faziam se sentir nostálgica.

       Rodopiou pela Plaza de Mayo, abraçada a forte energia da história que ainda pairava no ar. Lembranças duras da época da ditadura, em que, mães procuravam  por seus filhos desaparecidos. Viera em busca desta e muitas outras histórias para um documentário que escrevia, mas, o veterano coração, nada ingênuo, além de apaixonado, acalentava alimentar-se do fervor dos acontecimentos de dois anos passados, quando levou na bagagem dias vividos unicamente para o romântico aroma portenho e, a partir deste momento, sabia, em qualquer café, poderia reencontrá-lo.

     Aquiete-se meu âmago! - dizia ela -  primeiro, o Cabaña Las Lilas em Puerto Madero, com o saboroso bife de chorizo e seus acompanhamentos.

    Depois, o café com os petit-fours para enriquecer a matéria que preciso escrever,   que fale das excelentes carnes suculentas, destacando a gastronomia como ponto forte deste país. Ah! eu sei, os "Cafés Notables" nos esperam,   mas, paciência, coração, antes a obrigação.

    Estamos tão próximos do Tortoni! Insistia a voz interior que na maioria das vezes comandava-lhe os passos. Silvia odiava admitir, mas era movida pela emoção, sempre, muito mais que pela razão.

    Era julho, vestia um sobretudo 7/8, de lã, preto, acompanhado por um scarf em tom carmim. Nos lábios, gloss, umedecendo-os contra o vento seco e gelado.  Os cabelos castanhos, longos e ondulados  se moviam a cada passo que  dava  em direção ao café Tortoni. Definitivamente, sucumbia aos desejos do coração.

    De longe ela podia avistar a fachada do edifício, três andares, em ferro e vidro, com suas varandas em estilo francês. Estava convencida que um bom café e a companhia  de Borges, que ali, no Tortoni, muitas vezes sentou e rascunhou seus escritos, lhe fariam bem neste final de tarde gélido.

    "Eu caminho por Buenos Aires e me detenho, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e uma porta envidraçada; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico". Silvia havia lido estas palavras por Borges, em "Borges e eu". Era incrível como  se sentia como ele. 

    A Silvia, jornalista, era citada por seu trabalho,  se resumia ao jornal, revistas e documentários, porém a mulher que a habitava  se fazia pura  poesia, romantismo, desejo explicito, através dos olhos  cor de céu, estrelados  pelo observador Carlos Gardel a convidá-la para o sub solo, onde concertos de tango e jazz aconteciam.   Esta parte da história seu subconsciente criara, só para fazê-la importante, porém Carlos Gardel já estivera ali, isso não era ilusão, tinha menção a ele, numa mesa, próxima da janela onde ela estava sentada.

    Não havia mesa vazia àquela hora,  tão pouco barulho que incomodasse. Enquanto muitos conversavam, alguns liam, reclusos ao mundo literário exclusivo. Silvia  viajava com seus pensamentos ao sabor de um submarino quente inenarrável.

    Ela, até procurara, discretamente, pelo olhar de Juan, mas impossível seria reconstituir a história, esta fora perfeita e completa, nada ficara para ser revivido. Uma pena, pensou, enquanto sentia o chocolate dissolver-se na boca, com o mesmo sabor  dos beijos de Juan, assumindo para si a chocoólatra que era, ou ardentemente necessitada de  Juan, que não se repetiria. Ah, como seria bom ter novamente os seus lábios junto aos meus, Juan, pensava ela.

    O relógio na parede que, também, sustentava  inúmeros quadros e gravuras, apontava mil motivos para que ela retornasse ao hotel. Passava das vinte horas, a manhã seguinte seria de árduo trabalho, acumulados aos que deixara de fazer neste dia. Mas, Silvia se prometia, e com o tempo tentava negociar em pensamento, antes de retornar ao Brasil, iria à casa de tango que Carlos Gardel a convidou, quando nesta tarde ele lhe piscou, sorridente, num convite irrecusável e confidente.

    Sorriu,   pagou a conta e saiu. Sabia convencer seu coração a buscar no improviso o que a realidade dificultava oferecer-lhe.

    Borges sabia o porque afirmara, um dia, assim como ela dizia, copiando-o:  "Chego a meu centro, à minha álgebra, ao meu espelho. Em breve, saberei quem sou".

    O vento da noite, cortante, beijava-lhe o rosto sugerindo abraça-la, como ela assim desejava o ser ...  

                                                                                           17/09/2004

                                                       

 

 

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