O Fio da História
lucelena maia
Há pessoas que nascem, vivem e morrem no mesmo lugar. Outras são movidas pelas mais diversas circunstâncias a saírem de sua terra natal.
Eu, jovem austríaca, de dezesseis anos, do Estado de Tirol, ouvia dizer do quinto maior país da terra, o Brasil, que desenvolvia acentuada política imigratória. Era início do século XX.
Apesar das dificuldades econômicas, e da dependência da evolução do preço do café para ver o Tirol prosperar, jamais me passou pela cabeça abandonar a Áustria, mas, por volta de 1920 iniciou-se um sucessivo depauperamento no país e como meu querido e amado pai deixou-se envolver pelo projeto Thaler, no governo Dolfuss, em que o Ministro da Agricultura, Andreas Thaler, com um capital de 200.000 shillings, pesquisando a América do Sul, encontrou, na região do estado de Santa Catarina, terras semelhantes com algumas regiões austríacas e fundou Dreizehnlinden, que mais tarde veio a se chamar Treze Tílias, eu mudei de idéia.
Treze navios, entre 1933 e 1938, cheios de austríacos, partiram para a terra prometida.
A partida do primeiro grupo de tiroleses, com destino a Treze Tílias, se deu em 08 de setembro de 1933 e nele estava meu pai, que, como amigo do ministro e músico, tinha a intenção de alegrar os 83 imigrantes por um período curto, até que se adaptassem à nova terra e recepcionassem outros que viriam em um futuro bem próximo. Depois, então, ele retornaria para a Áustria onde deixara esposa e filhos.
Mesmo sendo apenas uma jovenzinha, praticamente uma menina, inconformada em vê-lo partir para terra tão distante, sugeri acompanhá-lo para suprir-lhe as dificuldades com os afazeres de casa. Ah! Eu não podia imaginá-lo mal cuidado.
Foi dessa forma que também segui para terras estranhas, porém dizia-se, próspera e com aparato diferente.
Não idealizávamos o quanto de trabalho nos aguardava, na verdade supúnhamos sim, mas não tínhamos noção do quanto de suor deixaríamos na terra, até vê-la fértil para atender as necessidades que chegavam a cada novo vapor, a cada nova criança que nascia na comunidade, a cada novo desejo que assolava o peito na madrugada, quando o corpo cansado não conseguia relaxar nem se entregar ao sono. Desbravávamos matas, construíamos casas, buscávamos arrebatar um sorriso perdido entre a plantação, em cada rosto triste e saudoso dos entes queridos deixados para trás. Lutávamos como guerreiros, com o único objetivo de vencer a dificuldade de adaptação.
Passados dois anos, período que no início me fazia chorar diariamente, ainda que eu trabalhasse intensamente desde o amanhecer até o anoitecer e muitas vezes até durante a noite, naqueles últimos meses, a distância de minha terra já não me machucava tanto. Meu coração já não estava ocupado só de saudades, estava habitado pelo amor de um jovem imigrante que conheci no navio, de uma outra região da Áustria.
Justamente naquela época em que eu me sentia menos triste e até conformada com a falta da família, meu pai comunicou que partiríamos. Dizia que havíamos ficado muito mais tempo do que ele previra.
Eu sentia que um dia voltaríamos à Áustria, e era só o que eu queria; rever minha mãe e meus irmãos, mas não naquele instante. Eu havia aprendido a conviver com a dificuldade e dentro de tantas barreiras, unimos forças para nos fazermos fortes. Eu estava amando e se partisse enfraqueceria meu namorado, mais que isso, o desestimularia a continuar na luta pela sobrevivência.
Chorei durante toda aquela noite e quando o sol, naquela manhã fria de maio, penetrou pelas frestas da janela, trazendo com ele um gélido ar outonal, e, antes que eu servisse o café da manhã ao meu pai, acompanhado de pão amanhecido, falei da grande dor que me dividia.
Algumas semanas depois daquele monólogo, meu paizinho partiu de volta para a Áustria, mas antes fez com que a minúscula cidade fosse palco da união de dois jovens, porque entre tantas dificuldades ele sabia que acreditávamos em nosso futuro, ali.
Com a segunda guerra mundial, os imigrantes alemães e austríacos sofreram discriminação no Brasil, chegando a padecer de perseguição, mas, nada, nem mesmo as humilhações de vermos amigos serem presos, fez a banda tirolesa parar de tocar. O som encorajador lembrava meu pai, trazia saudades da minha mãe e dos meus irmãos. A música que ele tocara, no início, quando chegamos, tentando alegrar os olhares perdidos, sem rumo, de todos nós imigrantes, era a mesma que fazia parte do repertório dos meus dias.
Todos os dias, nos longos anos que me separaram deles, eu as cantava para que a saudade não sufocasse meu peito. Eu as ensinei aos meus filhos, que ensinaram aos seus e da minha terra natal sobrou lembranças que eventualmente retiro da gaveta para que não se apaguem da minha memória.
Infindáveis anos se passaram até que meu marido e eu conseguíssemos visitar nossos parentes na Áustria. E isso aconteceu apenas duas vezes nestes longos anos de nossas vidas. Quando lá estive, na última vez, já não abraçei meus pais, mas recebi muito carinho dos meus irmãos e sobrinhos.
A luta foi extensa, a tristeza grande, às vezes quase insuportável, mas não podia ter sido diferente.
Vejo, hoje, um brilho desigual nos olhos dos meus netos, o mesmo que vi nos olhos dos muitos imigrantes e do meu próprio pai, quando diziam o que encontraríamos aqui no Brasil, quando ainda vivíamos na Áustria. Só agora entendo essa vivacidade, e como ela atravessou gerações...
14/12/2004
Uma história baseada na vida de uma imigrante.
Dados pesquisados nos livros dos escritores:
Luiz J. Gintner - O Tirol Brasileiro
Maira A. Kandler - Banda dos Tiroleses
Ernst Klotz - Uma Longa Carta de Treze Tílias
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