Os poemas de Maria...

                                                                lucelena maia

 

    Havia noites, o barulho das ondas, em impacto com as rochas no penhasco  de infinita solidão que  sustentava a casa de Maria, falava-lhe ao ouvido, em forma de gemidos nostálgicos, sobre atos não cometidos por ela, náufragos atos, que ela não ousou aventurar-se no passado e, que, agora,  assombravam-lhe as noites, desarranjando o sossego que ela buscara ao se  distanciar do ontem.

    O seu lado sensato, porém não menos inseguro, jamais corajoso, a levou  para um caminho sem volta,  conduzindo-a para o esconderijo de si mesma, a lembrar dos dias solitários pela areia em que  somente suas pegadas eram vistas.

    Quantas vezes, desde que ali chegou, se traiu, escrevendo poemas saudosos, falando da necessidade do brilho de um olhar que esquentasse sua alma, um romântico afago nos braços do luar, uma noite de amor embalada pelo som das mansas águas. Chegou a dar nomes aos poemas, sempre, os mesmos nomes, que, lidos pelas ondas, ao mesmo tempo  eram  lambidos  por elas, náufragos.

    Quando tudo começou?  Maria tentava recordar, e quanto mais insistia mais intenso ficava o som nas rochas.

    O isolamento que buscara,  não se resumia em refúgio, qualquer pessoa passaria dias usufruindo do silêncio que aquele ambiente proporcionava, sem se sentir só, bastando  sentar na varanda a observar o infinito do mar, os muitos navios que ao fundo navegavam, por horas, até sumirem à visão. Via-se a felicidade dos pássaros, em revoada, entregues ao cenário perfeito da natureza recepcionando o dia e, também, os olhos de quem os observava. Podia-se ver, sem nenhum esforço, a brisa acariciando as folhas das palmeiras no início de mais uma manhã, a secar o sereno da madrugada. O sol  despontando dourado, verdadeiro rei, firme até o poente, cuja despedida em verdadeira apoteose era, para ela, sabê-lo fechar as cortinas do mais belo espetáculo já visto.  Um verdadeiro cartão postal  para delírio de seus sentimentos, cujo romantismo tinha sido uma tela inacabada.

    Era certo, aquele ambiente de paz. Até mesmo descer por entre as rochas e chegar à praia era uma aventura prazerosa, uma pitada de aventura física e exercício de resistência inquestionável. Tudo parecia e poderia ser perfeito para Maria, não fossem os gemidos dos seus atos não cometidos, cobrando-lhe, através das águas  nas pedras e dos  líricos  poemas com  versos naufragados em rimas perfeitas,  covardia.

    A redonda lua, observada por ela com a mesma candura e  romantismo dos tempos pregressos,  tornara-se um verdadeiro candelabro a iluminar as águas, que quanto mais Maria tentava não ouvir, mais elas escalavam as rochas a molhar em intenção seu angustiado coração.  

    Assim eram quase todas as noites, mal dormidas, de Maria.

    Assim eram os ventos nos seus dias, torturantes, a assoviarem...

     "...Maria, fresta do próprio vão". 

                                                                                                     09/09/2004 

 

 

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