Páginas Virgens

lucelena maia

 

Breve Romance de Sonho de Arthur Schnitzler - é lembrado neste conto)

 

    Eu folheava um  clássico da literatura desejando entrar no enredo da história que  em tudo se  parecia com os  acontecimentos  súbitos mágicos e até mesmo inocentes da minha vida.

    Perscrutadoras respostas eu buscava, como os personagens do  livro,  escavando o ciúme em conversas que, de cristalino, tinham apenas a  transparência do sentimento negando  perigosas suspeitas nas  falas, arrastadas por silentes confissões, perdidas em abstração.

    Pairava no ar uma estranha traição, e, em devaneio eu me olvidava, há dias, nas páginas deste livro, tentando penetrar o personagem, até então impenetrável, cujo desfecho das buscas seria flagrado, linha após linha, pela solicitude do  meu desejo, sem que  a enigmática necessidade do autor que, a mim, se inspirara mesmo sem saber nos suspiros latentes da minha alma,  as transcrevesse , anunciando-me. 

    Havia jogo de palavras, e eu as devorava  faminta, tentando entender  as suspeitas de infidelidade sem  a ação do corpo, sem o ato que levaria à condenação. Somente o inconsciente traía, impossibilitando a condenação.

    Como conhecer o interior devasso? Como desnudar os desejos ocultos do  pensamento? Como saber das fantasias não ditas?

    O personagem sofria e eu  me questionava,  até onde o autor me sacrificaria com tais  relatos. E, quando daria, ele, paz a consciência do personagem?

    Uma fraca  luz de lamparina iluminava o caminho que meus olhos percorriam. Enlouquecida encerrei a leitura, olhando para o ambiente que me aconchegava. A lamparina fazia parte do enredo, não da minha sala! Depositei o livro sobre a mesa sem que nele houvesse páginas virgens para grafar a onda de calor, que lê-lo, me causava.

    Cansada, como se eu  tivesse caminhado léguas, verti-me sobre o sofá, buscando  aconchego  e  servidão, enquanto confessava a mim mesma que, por vezes, eu também pecara, ao dizer-me pura, quando  sonhara acordada  com  fantasias eróticas. Sim, eu arrebatei, por mais de uma vez, o viço, ao me deparar com  a perfeição masculina, cortejando-me com seus olhares. Com eles viajei pelo universo da sensualidade, me entreguei ao engenho da sedução, ao toque das mãos, ao conceber da ação, ao gemido da vaidade, à exploração do desconhecido com total intimidade, e deles recuei em seguida, sem qualquer marca no corpo, mantendo-me limpa, em dignidade.

    Como entender dois seres solfejando um ao ouvido do outro amor ao mesmo tempo em que guardam íntimos segredos  dentro do âmago, trancados, os quais jamais devem ser explorados?

    A curiosidade não me largava. Qual o desfecho que o autor poderia ter dado à história de seus personagens?

    Recoloquei-me sentada e, já, com o livro nas mãos corri os dedos ao encontro da leitura, sobre a linha onde  eu  havia parado. Fridolin e Albertini tinham vida e elas estavam escritas naquelas páginas. Eu tinha, também, uma história e ela estava a deles entrelaçada. Meus olhos mais uma vez nas linhas do livro se jogaram, sacrificando a madrugada de sonhos que o tic-tac do relógio insistia lembrar, na cama, me aguardava.

    Eu vivia um romance de sonho e outro de realidade. Um, me tinha nos braços e me possuía, o outro me possuía sem ter-me nos braços. Assim, era com ele também, eu sabia e me roia de ciúme por sabê-lo segredar só pra si uma infinidade de pensamentos e era provável que a ele, eu despertasse fúria quando contava os sonhos, não os acordados, mas os que me faziam remexer  na cama, em pleno gozo, de fato.

    Esse contar quase tudo, fazia nossa relação vulnerável, melhor seria o tudo bem contado, mas como saber se ao final de tantas confidências o destino nos tornaria incólumes às aventuras reais e as sonhadas?

   Neste momento eu lia a última página do livro, os personagens se enfrentavam, olhos nos olhos, expondo  conflitos repletos de ira,  desencantos com o  jogo dúbio inconsciente, cuja traição maior tinha sido não trair, ainda que um vagasse suas fantasias em sonhos e o outro buscasse-as na rua,  deixando a morte, quase, perpetuar  ao ciúme.           

As últimas linhas do livro davam ao casal a possibilidade de reflexão sobre "suspeita tanto quanto certeza que a realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida não significava sua verdade íntima". E, juntos, aninhados um no braço do outro, não ousaram pensar no futuro.

    Meus olhos estavam cansados. Eu conseguira saber sobre Fridolin e  Albertini, só não conseguia saber de mim...

    Caminhando pelo corredor, cheguei ao quarto, e me coloquei a observar aquele corpo adormecido. Mordi os lábios. Eu o amava  e  ele também  a mim,   independente do  ruidoso interior  que nos habitava.

   Era chegado o momento de derrubar a máscara que alimentava o ciúme pelo desconhecido.

    Dei o primeiro passo...

    Coloquei o livro na cabeceira da cama, ao lado dele.

   

                                 

                           

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