Porteira Fechada

                lucelena maia

                   

                               

    Eles eram jovens e galanteadores. Simpáticos e conquistadores.

    Possuíam humor extravagante que, por vezes, os colocara em apuros, ainda mais, quando bebiam.

   Estudavam fora da pequena e turística cidade natal, que amavam de coração e só desfrutavam nas férias.

    Eram filhos de famílias tradicionais e não dispensavam rever familiares e as encantadoras jovens, do local.

     Um verdadeiro paraíso, costumavam dizer.

     O fato a seguir, aconteceu em meados dos anos sessenta, nada inédito, apenas mais um dos pitorescos casos daqueles jovens.

     Dois deles, logo que chegaram para as férias, encontraram as belas e morenas irmãs gêmeas. Moças distintas, filhas de fazendeiro rico, dono de muito gado e vasta plantação. Família recém mudada para o local.

     Tamanha riqueza não tinha a menor importância para eles que já flertavam com elas, há dias.

     Bom! A riqueza delas não tinha importância para eles enquanto não bebiam a prazerosa cerveja, degustada pelo paladar da maioria dos jovens durante as noitadas em clubes - local popular e muito freqüentado na época.

     Naquela noite elas estavam ainda mais belas e durante arrastadas horas eles tudo fizeram até conseguirem o primeiro beijo, o primeiro abraço, o primeiro suspiro que os motivou ao pedido de namoro.

     Sim, naquela época usava-se pedir a jovem em namoro!

     Nos finais de semana os dois jovens casais se encontravam no clube e, durante a semana na casa das amigas delas.

     Em todos os encontros surgia a enorme dúvida para eles. Qual é a namorada de quem? Tão idênticas às gêmeas.

     Riam, aguardando que elas se aproximassem. Problema encerrado partiam a namorá-las. Maneiravam na bebida para não descomedirem nos avanços, impróprios para início de namoro.

    Tudo corria muito bem até o dia em que receberam o convite para a festa de aniversário delas, que fariam dezoito anos. Seria na fazenda. Churrasco regado à cerveja.

    Eles se entre olharam, certos que uma festa como esta seria perigosa. Como controlar a quantidade de copos? Pensaram, pensaram, enfim, não havia como negar, e, também, para que perderem tal oportunidade! Riram com os olhos, bem sabiam o que pensavam.

    Chegaram à fazenda, bem vestidos e com os presentes nas mãos. Os amigos que lá se encontravam nem acreditaram. Era bom comportamento demais para quem não possuía tal dote! Mas, para as moças tudo acontecia com total encantamento.

    Foram apresentados aos pais delas  e a outros familiares, fato que pesou sobre eles em responsabilidade, mas só enquanto sóbrios.

    As horas passavam e eles aproveitavam a festa como ninguém.

    Já haviam bebido além do que, eles mesmos, podiam imaginar. Viviam batendo recordes.

    Em determinado momento, largaram as moças e caminharam com os amigos ao encontro da porteira que dividia, a sede, do pasto, de onde podiam vê-lo.

    Gado de corte! Eles comentaram expressando entusiasmo na voz.

    O estrondoso rebanho fez os dois rirem alto e comentarem nada discretos;

   Todos os da direita sãos meus, falou um deles, quase gritando e apontando com o dedo.

    Tudo bem, eu fico com os da esquerda, o outro completou, mas vamos contar direito porque num quero ficar no prejuízo.

    Os amigos riam, apoiando a brincadeira.

    Claro! Sobe aqui. Concordou o que já estava em cima da cerca, enquanto tomava mais um gole de cerveja.

    Conta aí, eu quero saber quantas cabeças tem no pasto, o outro ordenou enquanto subia, pedindo para um dos amigos segurar seu copo de cerveja.

    E, assim continuaram e, aos poucos, foram chamando a atenção dos convidados que não acreditavam no que ouviam. Os rapazes dividiam a herança das moças.

    O pai das meninas, furioso, suspendeu as bebidas e ordenou que as filhas os mandassem embora. Ele sabia que era resultado do álcool, mas não pretendia tolerar namorados intrusos e desrespeitosos.

    Elas, por outro lado, não acreditavam no que ouviam, nem deles e nem do pai.

    Era humilhante tal situação. Terminaram o namoro, literalmente irritadas.

    Eles, que pouco se davam conta do acontecido, acataram a decisão delas, caminhando cambaleantes pela estrada, quando, de repente, depararam com um córrego de água cristalina. Sem pensar duas vezes tiraram as roupas e se jogaram na água, completamente nus, dando seqüência à farra que haviam começado na sede da fazenda.

    Riam muito, ao mesmo tempo em que lamentavam ter contado tanto gado, à toa...

    Foi assim que o dia terminou e a data ficou gravada como mais um acontecimento da turma dos anos sessenta.

    Na manhã seguinte, envergonhados, tentaram falar com as moças, mas elas, que estavam na casa de uma amiga, na cidade, bateram com a porta na cara deles que, se olharam, se apoiaram um no ombro do outro, afirmando juntos, enquanto riam deles mesmos.

    "Ia dar em confusão de qualquer jeito! Namorar gêmeas idênticas é muito complicado!" 

                                                                                  19/5/2003

 

 

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