Regresso
lucelena maia
O inverno se aproximava.
Julia podia sentir o gélido vento penetrar pela fresta da sua alma anunciando rigorosos meses de névoa à frente. Não haveria lareira que pudesse aquecer o frio que se aproximava.
Da lembrança, ela resgatava mãos fortes cortando lenha para as noites sem termômetros, em que a temperatura era registrada por dois corpos abraçados. Bocas e mãos buscando aconchego nas curvas mais quentes das delirantes noites nevascas.
A lareira adormecida, remetia-a, sem o menor esforço, ao último inverno, quando o fogo se enamorara, lentamente, das pequenas toras de madeira, enquanto o calor da ardente paixão aquecia a sala, através da fala das labaredas internas, queimando-lhe a pele, cuspindo desejo, sem trégua e fazendo dela fogo que não se apagava.
Não ousava, ainda, olhar para o piano no canto da sala. Uma rápida olhada pela janela, para a lareira apagada, para o vão dos degraus da escada, para a mesa vazia, as taças guardadas e o frio penetrando a casa. No piano uma rosa vermelha era aguardada. Assim tinha sido no último inverno, quando a colheu de inesperado, em uma manhã, entre beijos e carinhos molhados.
O inverno se aproximava, Julia podia sentir...
16/6/2004
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