Reacender

                   lucelena maia

 

 

Hoje acordei com as cores da primavera,

Múltiplas flores abrindo  minha janela,

Trazendo, com elas, cheiro da sexualidade

Que me habitava, outrora, a intimidade.

 

 

Mãos trêmulas conduziram, ao chão, a camisola,

Despojando, ao espelho, o corpo  de uma tola;

Como tesouro guardado, náufrago, no passado,

Transformado em ruína, não mais tocado.

 

 

Era preciso reescrever um sorriso no rosto,

Colocar holofotes, fazer setembro em agosto,

Aproveitar a ventania do mês, em quantidade,

Desfazer a tristeza com restos da mocidade;

 

 

Pintar serenidade sobre a ferrugem forte, 

Traçar, nos lábios, tom carmim, para dar sorte,

Expulsar a solidão adormecida atrás da porta,

Arejar a respiração da mulher, quase morta;

 

 

Trocar o guarda-roupa repleto de desilusão,

Doar a insipidez do dia-a-dia para cremação,

Assimilar as belezas cantadas pela natureza.

    Unir-me a liberdade do adeus à tristeza;   

 

 

Ser Livre, livre das decepções e mazelas,

Enxergar luz vinda das flores, como uma vela

Que clareia, ao fundo, um veio da alma,

  Alma em dor, refugiada na fronteira do trauma; 

 

 

Sair do cativeiro, experimentar o primeiro passo,

Observar a vida além da janela, surgir no terraço...

Vou reacender o fio da chama, olhar à frente,

Fincar os pés na terra e voltar a ser semente. 

  

                                         21/11/2003

 

 

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